Start

Relembrar as origens é um exercício que jamais podemos deixar de fazer, pois só assim podemos apreciar crescimento, ou - não raras vezes - o decrescimento, este que inclusive deve cumprir, em nossa consciência (assim acredito), uma específica função, qual seja a de nos fazer levantar, sacudir a poeira e mais uma vez continuar em nossa busca, qualquer que seja.

É assim que busco enxergar as dificuldades que foram superadas no início.

Sem querer louvar dificuldades enfrentadas em algum momento da tenra idade, acredito que com o olhar de menino nunca houve qualquer tipo de agonia, desconforto, mas tão somente graça e a oportunidade ímpar de aprender a dar valor ao que se busca.

O primeiro contato que tive com dinheiro, pelo que consigo recordar, foi aos meus seis anos de idade, quando minha mãe me deu uma nota de 100 cruzeiros. Na época, eu consegui comprar um picolé, que nos dias atuais custa 1 real (e 20 anos antes, 10 centavos de Real).

Mais alguns dias à frente, em 1994, vi o frenesi causado pela troca da moeda. Era o Real ganhando o seu espaço, época em que o salário mínimo custava uns 60 reais e com 10 reais você fazia um farto rancho para o mês inteiro.

Meu pai, que era padeiro, relata que antes dessa troca de moeda, era comum comprar um fardo de trigo em um dia e, no dia seguinte, com o dinheiro apurado da venda dos pães não conseguir comprar o mesmo saco de trigo. O que era pra dar lucro e manter a casa, causava prejuízo e desespero.

Mesmo assim, até então, eu  nunca havia me preocupado com dinheiro. Isso era coisa pros meus pais, ou quem quer que estivesse na obrigação de me alimentar (rsrsrs).

Um ano adiante, acompanhado de mãe, irmão e padrasto, passamos a vender garrafadas de chá (carapanaúba e unha de gato eram os principais) e frutas (bacuri, ingá, jambo, manga).

Em 1996, aos 9 anos de idade, passei a morar com minha avó (e avô). Ela, super rígida, não abria mão fácil do dinheiro que tinha. Eu, que começava a me tornar menino de rua (rueiro, como ela gostava de dizer), passei a apreciar coisas que eu não poderia ter sem que devidamente pagasse por elas.

Foi então que atentamente observei um catador de latinha colhendo as latas que ficavam espalhadas à frente do bar do meu avô. Fiquei com essa cena na mente até o dia em que, visitando a casa de um dos colegas de infância, notei que era a mãe dele quem comprava as latinhas!!!

Bingo. A festa foi uma só!

A partir daquele dia, eu passei a colher e amassar as latinhas, numa felicidade que não tinha explicação. 

Não lembro muito bem de onde veio a ideia, mas passei a juntar dinheiro com o objetivo específico de fazer o meu primeiro investimento na vida: comprar uma caixa de picolé. Um objetivo bem modesto, e atingido com sucesso.

A partir de então, experimentei por algumas semanas encher a caixa de picolé e vender nas ruas da minha cidade. Muito menino, ao custo de R$ 0,05 revendia a R$ 0,10, a R$ 0,05, ou aproveitava os boiados. Hahahaha.

A ideia era boa. A pena é que a gente não aprende desde cedo a aportar. E, a bem da verdade, a rua servia mesmo era pra brincar.

E foram assim, pessoal, o meu primeiro contato com dinheiro e o meu primeiro investimento.

Há fracasso nisso? Talvez ainda não seja o momento de se discutir um conceito tão adulto. Mas a verdade é que, ao menos como frustração, a experiência do primeiro investimento deixou a sua marca: start (inicie)!

Balanço:

1994
Receitas: CR$ 100,00
Despesas: CR$ 100,00
Aportes: 0,00

1995
Receitas: -
Despesas: -
Aportes: 0,00

1996
Receitas: brincadeiras de rua, uns picolés boiados
Despesas: muito joelho ralado
Aportes: 0,00

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